GERAL ALEMA
Integração e inteligência no combate às facções criminosas são destaques no ‘Contraplano’
Jornalista e escritor Nelson Melo, major da PM Givanildo e delegado Augusto Barros detalham desafios, estratégias e impactos do crime organizado na...
26/10/2026 16h03
Por: Redacão Fonte: ALEMA

Agência Assembleia

O avanço das facções criminosas e os desafios do enfrentamento ao crime organizado no Maranhão foram tema do programa Contraplano, exibido nesta terça-feira (10), pela TV Assembleia. Participaram do debate o jornalista e escritor Nelson Melo, o subcomandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope), major Givanildo, e o delegado Augusto Barros, titular da Superintendência de Investigações Criminais (Seic).

Durante a entrevista, os convidados destacaram que o combate às facções exige integração entre as forças de segurança, investimento em inteligência e uma resposta especializada do Estado.

Nelson Melo, autor de livros sobre a guerra urbana em São Luís, explicou que o fenômeno das facções não é exclusivo do Brasil e segue modelos internacionais. “O crime organizado se desenvolve a partir da articulação do grupo. Existe uma dinâmica própria e é importante frisar que isso não é um fenômeno brasileiro”, afirmou. Segundo ele, muitas das estruturas adotadas no país foram inspiradas em organizações mafiosas estrangeiras.

Para Nelson, a expansão dessas organizações envolve fatores financeiros, sociais e até psicológicos. Ele chama atenção para o que classifica como “fanatismo” entre jovens integrantes. “É como se fosse um terrorista. Para cada faccionado que sai de cena, aparecem dez. Existe uma romantização, como se fosse uma espécie de Robin Hood”, declarou. O jornalista revelou ainda que o que mais o impressionou em suas pesquisas foi a presença de adolescentes na linha de frente do crime. “Muitos que eu entrevistei em 2015 e 2016 já não existem mais por conta dessa vida”, relatou.

Desafios operacionais e apoio da comunidade

Do ponto de vista operacional, o major Givanildo destacou as dificuldades enfrentadas pelas forças policiais, sobretudo na obtenção de informações. “O tráfico de drogas é um fenômeno mundial. A gente tem uma dificuldade imensa de conseguir informações para chegar nas principais lideranças, até mesmo pelo medo do cidadão de bem de ser ameaçado ou morto”, afirmou.

Ele reforçou que a participação da população é essencial para o enfrentamento. “A comunidade pode contribuir ligando para o 190. Não fica registrado o nome da pessoa, é totalmente sigiloso. Tem também o disque-denúncia da Polícia Civil. Isso ajuda muito no policiamento preventivo e na parte investigativa”, ressaltou.

O subcomandante do Bope também explicou como as operações são planejadas com base em inteligência. “Hoje temos a Diretoria de Inteligência da Polícia Militar e, no Bope, a nossa agência de inteligência local. Conseguimos identificar lideranças tanto do estado quanto de outros estados que venham buscar abrigo no Maranhão”, disse.

Como exemplo, citou uma operação integrada com forças de Goiás que resultou na prisão de um integrante de organização criminosa que atuava como braço financeiro do grupo. “Conseguimos localizar e prender juntamente com o Bope de Goiás. Em outra operação, identificamos uma liderança daqui que estava em Pernambuco e fizemos a prisão com apoio da inteligência local”, relatou. Segundo ele, novos cursos de especialização estão sendo realizados para fortalecer o enfrentamento às organizações criminosas.

Estrutura empresarial do crime

O delegado Augusto Barros comparou a evolução das facções a um modelo empresarial. “É como se fosse aquele pequeno mercadinho local que expandiu sua operação. As grandes facções criaram um método próprio, como uma grande empresa, com hierarquia e divisão de tarefas”, explicou.

Ele destacou que os estados funcionam como “franquias” dessas organizações. “São abertas as franquias do crime. Em algumas cidades há expansão de uma facção, em outras de outra, e muitas vezes há disputa entre elas, o que gera a maior parte da violência urbana”, afirmou.

Para o delegado, o combate ao crime organizado exige uma resposta diferenciada do poder público. “Para enfrentar o crime organizado, precisamos de especialização de todo o Estado: polícias, Judiciário, Ministério Público. Não é como o trato ordinário do pequeno crime desorganizado”, pontuou.

Barros também alertou para a expansão das facções no interior do Maranhão. “O avanço é percebido por uma criminalidade que não existia e passa a existir. As pessoas mudam a rotina, instalam grades, alarmes. Cidades que tinham um homicídio por ano passam a registrar crescimento de crimes patrimoniais e disputas de território”, destacou.

Ao final do programa, os convidados reforçaram que, apesar dos desafios, as forças de segurança têm intensificado operações integradas e investido em inteligência para enfraquecer as organizações criminosas e que o enfrentamento ao crime organizado depende não apenas da repressão qualificada, mas também do envolvimento da sociedade e de políticas públicas contínuas.