
O que antes eram apenas letras soltas do alfabeto, se tornaram palavras, que se tornaram frases, que se tornaram textos. Textos que eram lidos de forma silabada, pausada, agora são lidos de forma fluente e são compreendidos. Essa tem sido a realidade de muitos estudantes das escolas municipais de Belém desde a chegada dos agentes de leitura, profissionais que têm como tarefa apoiar os alunos em defasagem a se tornarem leitores fluentes.
O projeto dos agentes de leitura é uma iniciativa da Secretaria Municipal de Educação (Semec), criado em 2026, inédito em Belém e pioneiro no Brasil. Os agentes são pedagogos contratados por meio de processo seletivo simplificado para atuar especificamente com as crianças que precisam passar do nível de leitoras de palavras e frases para leitoras de textos.
Além dos agentes de leitura, a rede municipal de educação também conta com bolsistas que auxiliam os alunos a alcançarem a leitura fluente de textos.
A coordenadora de Ensino Fundamental da Semec, Cássia Lima, explica que embora existam iniciativas com o mesmo nome em outros lugares, como no Ceará, o modelo de Belém é diferente e inovador.

Dados do Sistema de Avaliação Educar pra Valer (Saev), plataforma da Semec que monitora os dados da aprendizagem dos estudantes da rede municipal, já indicam os avanços obtidos pelas escolas de Belém em relação à fluência leitora dos seus estudantes no decorrer deste ano. Em março de 2026, apenas 19% dos estudantes de Belém eram leitores fluentes. Em junho, esse número aumentou para 31%. No início de outubro, essa porcentagem já chegou a 41%.
A secretária adjunta pedagógica da Semec, Karina Portal, explica que esse avanço já reflete o trabalho dos agentes de leitura.
Os resultados da intervenção pedagógica desses profissionais já são visíveis. Na Escola Municipal Solerno Moreira, no bairro da Terra Firme, a diretora Josiane de Mendonça explica que com a chegada da professora agente de leitura, a porcentagem de crianças alfabetizadas no 2º ano, que era de 27%, praticamente dobrou.

Na Solerno Moreira, a agente que está desde agosto desenvolvendo um trabalho intenso e ao mesmo tempo lúdico e leve de leitura com as crianças é a professora Marta Nicodemos. Professora há 39 anos, ela destaca a importância de tornar o processo de aprendizagem uma experiência prazerosa para as crianças.
Na sala onde realiza seus atendimentos e nos arquivos do seu celular estão os sinais desse investimento na ludicidade: um “paredão da leitura”, com diversas ilustrações e textos curtos selecionados por ela; um potinho com “pílulas de sabedoria”, que são doces com os quais ela presenteia os alunos; lápis de cor; certificados de “Leitores nota 10”; arquivos de alunos apresentando um telejornal, no qual leem diante da câmera um texto que simula uma notícia; dentre outros elementos.



A estudante Graziela Ribeiro, 7 anos, é uma das alunas do 2º que estavam fazendo esse acompanhamento com a professora Marta Nicodemos. Graziela começou como uma aluna em transição, ou seja, lia apenas palavras simples e frases, e hoje já lê e compreende textos.

Ela conta que gosta de “ler histórias” e, sobre os momentos de intervenção pedagógica com a agente de leitura, afirma: “É legal, porque a professora Marta é muito legal. Ela mostra historinhas e a gente tem que ler”.
Nas três turmas de 2º ano nas quais a professora Marta atua, houve avanço em fluência leitora, conforme mostram os dados do Saev: em uma das turmas, por exemplo, o índice aumentou de 19% (em março) para 23% (em junho), e, após a chegada da agente de leitura, saltou para 44%.
Josiane ressalta a importância dessa conquista para as crianças e para as suas famílias.

Além de oferecer esperança para as famílias,o domínio da leitura e a alfabetização melhoram a autoestima das crianças e impactam diretamente na sua vida social.
A docente reconhece o papel das famílias nesse processo, bem como o dos professores regentes (responsáveis pelas turmas).
Atualmente,a rede municipal de educação conta com 33 agentes de leitura e mais 100 bolsistas. Os agentes e os bolsistas são lotados nas escolas com maior número de alunos em fase de transição ou que ainda nem chegaram nessa fase.
Em 2027, a Semec prevê nova chamada de profissionais para alcançar todas as escolas que ainda precisam atingir a meta de alfabetização e fluência leitora de seus alunos.

