
A infância e a adolescência são fases marcadas por mudanças, descobertas e diferentes formas de expressar sentimentos. Nesse período, alterações de comportamento podem fazer parte do desenvolvimento, mas também podem indicar que a criança ou o adolescente está passando por alguma situação que precisa de atenção. Por isso, observar mudanças persistentes, manter o diálogo aberto e oferecer um espaço seguro para falar sobre o que sente são atitudes importantes para o cuidado com a saúde mental. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) orienta pais e responsáveis a estarem atentos às mudanças de comportamento e às necessidades emocionais de crianças e adolescentes.
De acordo com o psicólogo do Centro de Atenção Psicossocial Infanto-juvenil (Caps i) Cirandar, serviço da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) de João Pessoa, Vimário Lacerda, comportamentos como irritabilidade, isolamento, impulsividade, oposição ou dificuldades de relacionamento não devem ser analisados de forma isolada. É preciso considerar a fase de desenvolvimento e também o contexto em que a criança ou o adolescente está inserido.



“Esses comportamentos, isoladamente, não significam que a criança ou o adolescente tenha um transtorno. Eles podem estar relacionados a diferentes situações, como dificuldades na dinâmica familiar, ausência de limites ou uma educação excessivamente permissiva. Por isso, é importante compreender o comportamento dentro da realidade daquela criança ou adolescente”, explica.
Segundo o psicólogo, o que merece atenção é a persistência e a intensidade dessas mudanças, especialmente quando elas começam a interferir na rotina e nas relações familiares, escolares ou sociais. “Quando uma mudança de comportamento permanece por muito tempo, é muito intensa, parece desproporcional à situação vivida ou começa a causar prejuízos importantes na vida da criança ou do adolescente, é indicado procurar uma avaliação profissional”, orienta Vimário.
Atenção aos sinais – Entre as situações que merecem maior atenção estão mudanças significativas e persistentes no comportamento, isolamento, perda de interesse por atividades que antes despertavam prazer, alterações importantes na convivência familiar ou escolar e manifestações de sofrimento emocional.
O cuidado deve ser ainda mais imediato quando há sinais como autolesão, falas relacionadas à morte ou ao desejo de não existir, desesperança ou outras situações que indiquem risco à própria integridade. Nesses casos, pais e responsáveis não devem esperar que a situação se resolva sozinha ou tentar lidar com o sofrimento de forma isolada. A orientação é buscar ajuda profissional e, diante de uma situação de risco imediato, procurar um serviço de urgência.
Como conversar- A forma como os adultos abordam a criança ou o adolescente também faz diferença. Mais do que pressionar por respostas, é importante demonstrar disponibilidade para ouvir e evitar julgamentos.
“A escuta precisa ser acolhedora. Muitas vezes, a criança ou o adolescente não vai conseguir dizer diretamente ‘eu não estou bem’. O sofrimento pode aparecer por meio de mudanças no comportamento. Por isso, é importante observar, perguntar como ele está e mostrar que existe espaço para conversar, sem minimizar aquilo que está sendo sentido”, orienta o profissional.
Segundo Vimário, a presença dos pais ou responsáveis e a qualidade das relações familiares são elementos importantes no cuidado. Estabelecer limites, regras e consequências de forma coerente também faz parte de um ambiente saudável, assim como oferecer afeto, diálogo e segurança.
“A ideia é encontrar um equilíbrio entre acolher o sofrimento e compreender que nem todo comportamento difícil é sinal de um transtorno. O mais importante é olhar para aquela criança ou adolescente de forma integral, considerando sua história, suas relações e o momento que está vivendo”, ressalta.
Serviço – Para essa assistência, a Rede Municipal de Saúde dispõe de um serviço especializado voltado ao público infanto-juvenil. Por meio do Caps i Cirandar, crianças e adolescentes que apresentam sofrimento psíquico intenso e persistente recebem acompanhamento de uma equipe multiprofissional, de acordo com as necessidades de cada caso.
Atualmente, 428 crianças e adolescentes estão em acompanhamento no serviço, que oferece atendimento individual, atividades grupais e terapêuticas e também orientação e acolhimento às famílias. O trabalho é desenvolvido de forma integrada com outros serviços da rede, como Atenção Básica, escolas e assistência social, buscando garantir a continuidade do cuidado além do Caps.
“A família pode procurar diretamente o Caps i Cirandar quando perceber sinais de sofrimento psíquico intenso ou indícios de um transtorno mental grave. No serviço, nossa equipe realiza uma avaliação multiprofissional para compreender cada situação e verificar qual é o projeto terapêutico mais adequado para aquele paciente”, explica a diretora do Caps i Cirandar, Luanna Campos.
Além do acompanhamento de crianças e adolescentes em sofrimento psíquico intenso, o serviço também atende aqueles com transtornos mentais graves e persistentes, além de casos relacionados ao uso prejudicial ou à dependência de álcool e outras drogas.
O atendimento é por demanda espontânea e o serviço funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, na Avenida Gouveia Nóbrega, s/n°, no bairro Roger. O telefone para contato é 3213-7614.
Campanha – O ‘Setembro Amarelo’ reforça a importância de falar sobre saúde mental e prevenção do suicídio. “No caso de crianças e adolescentes, ampliar o diálogo dentro de casa, estar atento às mudanças e buscar ajuda quando necessário são formas de fortalecer a rede de cuidado e evitar que o sofrimento seja enfrentado de maneira silenciosa”, conclui o psicólogo Vimário Lacerda.

